Alcaçuz
Alcaçuz (Glycyrrhiza glabra): rasa Madhura, vīrya Sheeta, vipāka Madhura. Pacifica Vata e Pitta. Para que serve, como usar e precauções.
Para que serve
Yaṣṭimadhu é a resposta ayurvédica à secura irritada. As indicações clássicas formam um conjunto coerente: tosse seca, rouquidão, consumpção, feridas e úlceras, e hemorragias. Todas descrevem um tecido inflamado e desprotegido, e todas respondem à mesma coisa — algo doce, oleoso e frio que se deposita sobre a mucosa.
É por isso que o alcaçuz é a escolha oposta à do Tulsi. Tulsi é seco e move o muco; alcaçuz é úmido e protege a mucosa. Na tosse produtiva, com secreção, usa-se Tulsi; na tosse seca, irritativa, que raspa, usa-se alcaçuz.
Na medicina moderna, o uso com melhor evidência é gástrico. O derivado desglicirrizinado do alcaçuz, conhecido pela sigla DGL, tem literatura clínica em dispepsia e úlcera péptica — e é a apresentação preferida justamente porque a fração removida é a responsável pelos efeitos cardiovasculares. Ensaios em dispepsia funcional relataram melhora de sintomas.
Segunda linha: a garganta. Há ensaios mostrando redução de dor de garganta e de tosse pós-operatória com gargarejo de alcaçuz antes da intubação, o que é um uso estreito mas bem desenhado.
O alcaçuz é também o corretivo mais usado das formulações ayurvédicas: entra em compostos amargos e picantes para adoçá-los e para proteger a mucosa do que os acompanha.
Como age segundo o Ayurveda
O rasapañcaka: rasa madhura puro (doce); guṇa guru e snigdha (pesado e oleoso); vīrya śīta (refrescante); vipāka madhura (doce).
É a ficha mais uniformemente construtora do acervo — doce na entrada, doce na saída, pesado, oleoso e frio. Não há nada nela que reduza ou seque. No vocabulário ayurvédico, isso descreve uma substância que faz uma coisa só: nutre e umedece a superfície inflamada. A ação que os textos chamam de vraṇaropaṇa — cicatrizante — decorre disso.
Sobre os doshas, pacifica Vāta e Pitta e agrava Kapha, e a agravação é considerável: pesado, oleoso e doce são as três qualidades de Kapha somadas. Em quem tem congestão, muco espesso, retenção de líquido ou letargia, o alcaçuz é a escolha errada, e o mesmo uso que alivia a garganta seca de um paciente afoga o peito congestionado de outro.
A química explica o resto. O componente característico é a glicirrizina, saponina triterpênica dezenas de vezes mais doce que a sacarose. No organismo ela é hidrolisada a ácido glicirretínico, que inibe a enzima 11β-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2. Essa enzima converte cortisol em cortisona no rim; com ela inibida, o cortisol sobra e passa a estimular o receptor mineralocorticoide. O resultado é retenção de sódio, perda de potássio e elevação de pressão — o quadro chamado pseudo-hiperaldosteronismo. É o mecanismo de efeito adverso mais bem descrito de toda a fitoterapia.
Como usar
A parte usada é a raiz.
Na forma tradicional, 1 a 3 gramas de pó por dia, ou decocção de 30 a 50 mL. Para garganta e tosse, o veículo clássico é o mel, e a preparação mais simples é o pó em mel tomado às colheradas. Há também o gargarejo com a decocção morna, e o uso tópico da pasta sobre ferida.
Para uso oral prolongado, a apresentação sensata é o DGL — alcaçuz desglicirrizinado —, em comprimidos mastigáveis, tipicamente 380 a 400 mg antes das refeições. É a forma com que boa parte da literatura gástrica foi feita, e é a única em que o uso continuado não carrega o risco cardiovascular.
O número que orienta tudo: o comitê científico europeu recomenda um teto de 100 mg de glicirrizina por dia para consumo regular, o equivalente a cerca de 50 gramas de bala de alcaçuz. Casos de intoxicação aparecem em consumo bem acima disso, mas também, em pessoas suscetíveis, perto dele. Uso ocasional de poucos dias não é o problema; uso diário por semanas é.
Nas formulações, Yaṣṭimadhu aparece em quase toda preparação para tosse e garganta e é ingrediente de compostos oculares e cicatrizantes.
Precauções e interações
A precaução central é cardiovascular e é dose-dependente. O uso continuado de alcaçuz com glicirrizina produz hipertensão, hipocalemia, retenção de líquido e supressão do eixo renina-aldosterona — quadro reversível com a suspensão, mas que já levou a arritmia, fraqueza muscular grave e internação. Fatores de risco descritos: idade avançada, sexo feminino, hipertensão prévia e hipocalemia por diarreia ou por diurético.
Isso torna o alcaçuz contraindicado em hipertensão, insuficiência cardíaca, doença renal e hipocalemia. E torna a lista de interações longa e importante: diuréticos, sobretudo tiazídicos e de alça, que somam a perda de potássio; digoxina, cuja toxicidade aumenta com potássio baixo; corticoides, pelo efeito aditivo; anti-hipertensivos, cujo efeito é antagonizado; e antiarrítmicos.
Gestação é contraindicação: há associação entre consumo alto de alcaçuz na gravidez e desfechos adversos, incluindo parto prematuro. Amamentação entra na mesma orientação.
Pela leitura ayurvédica, agrava Kapha — congestão, muco espesso, retenção de líquido e letargia são contraindicações próprias.
Uma nota que resolve boa parte do problema na prática: a forma DGL não tem nenhum desses riscos, porque a glicirrizina foi removida. Quando o objetivo é gástrico e o uso é longo, é a escolha correta.
Este verbete é referência de estudo, não prescrição.
Perguntas frequentes
Alcaçuz aumenta a pressão?
Sim, e por um mecanismo bem descrito: a glicirrizina inibe a enzima que inativa o cortisol no rim, o que leva a retenção de sódio, perda de potássio e elevação da pressão. É dose-dependente e reversível ao suspender, mas já causou internações.
Quanto alcaçuz é seguro por dia?
O comitê científico europeu recomenda no máximo 100 mg de glicirrizina por dia em consumo regular — cerca de 50 gramas de bala de alcaçuz. Uso ocasional de poucos dias não é o problema; uso diário por semanas é.
O que é DGL?
Alcaçuz desglicirrizinado: o extrato do qual se removeu a glicirrizina. Mantém o efeito protetor sobre a mucosa gástrica sem o risco de hipertensão e hipocalemia. É a forma correta quando o uso é oral e prolongado.
Alcaçuz serve para tosse?
Para a tosse seca e irritativa, que é a indicação clássica: doce, oleoso e frio, protege a mucosa que raspa. Em tosse produtiva com muco, a escolha é oposta — ali se usa uma erva seca e aquecedora, como o Tulsi.
Alcaçuz serve para gastrite?
É o uso com melhor evidência moderna, na forma DGL: há ensaios em dispepsia funcional e literatura em úlcera péptica. Na tradição, o uso em úlcera e ferida é clássico e vem da mesma propriedade de recobrir a mucosa.
Quem tem pressão alta pode tomar alcaçuz?
A forma comum, com glicirrizina, é contraindicada — assim como em insuficiência cardíaca, doença renal e hipocalemia, e em quem usa diuréticos, digoxina ou corticoide. O DGL não carrega esse risco.
Fontes
- Scientific Committee on Food (União Europeia). Opinion on glycyrrhizinic acid and its ammonium salt — limite de 100 mg/dia, 2003. https://ec.europa.eu/food/fs/sc/scf/out186_en.pdf
- Omar H. R. et al. Licorice abuse: time to send a warning message. Therapeutic Advances in Endocrinology and Metabolism, 2012. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23185686/
- Penninkilampi R. et al. The association between consistent licorice ingestion, hypertension and hypokalaemia: a systematic review and meta-analysis. Journal of Human Hypertension, 2017. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28660884/
- Raveendra K. R. et al. An extract of Glycyrrhiza glabra (GutGard) alleviates symptoms of functional dyspepsia: a randomized, double-blind, placebo-controlled study. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, 2012. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21747893/
- Bhavaprakasha Nighantu — Yaṣṭimadhu.