Angélica
Angélica (Angelica sinensis): rasa Madhura e Katu e Tikta, vīrya Ushna, vipāka Katu. Pacifica Vata e Kapha. Para que serve, como usar e precauções.
Para que serve
A primeira coisa a dizer sobre este verbete é o que ele não é. Angelica sinensis pertence à medicina tradicional chinesa, não ao Ayurveda. Não figura nos Nighaṇṭus, não tem nome sânscrito e não aparece nas saṃhitās. Está no acervo como referência, e o rasapañcaka registrado é uma atribuição por analogia, não uma leitura clássica.
Na medicina chinesa, dong quai é uma das ervas mais prescritas: tonifica o sangue, move o sangue estagnado, umedece o intestino. Os usos correspondentes são menstruação irregular, dismenorreia, amenorreia, anemia, e constipação por secura. Raramente é usada isolada — a prática chinesa a combina em fórmulas, e o exemplo mais conhecido é o Si Wu Tang, o "decocto dos quatro ingredientes".
A evidência moderna é o ponto fraco. O ensaio mais citado, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, testou dong quai isolada em fogachos da menopausa e não encontrou diferença em relação ao placebo. Isso não encerra o assunto — praticantes de medicina chinesa apontam, com razão, que o uso tradicional é em fórmula e não isolado, e que testar o ingrediente sozinho não testa a prática. Mas significa que a indicação mais popular no ocidente, menopausa, não tem lastro.
Em dismenorreia, existem estudos com fórmulas contendo dong quai com resultados favoráveis, o que não permite atribuir o efeito a ela.
Como age segundo o Ayurveda
O rasapañcaka atribuído: rasa madhura, katu e tikta (doce, picante e amargo); vīrya uṣṇa (aquecedora); vipāka katu (picante).
A leitura é de uma substância que nutre e move ao mesmo tempo: o doce constrói o tecido, o picante e a potência quente destravam a circulação. Isso corresponde razoavelmente bem à descrição chinesa — tonificar o sangue e mover o sangue estagnado são, na tradução ayurvédica, exatamente essas duas ações.
Sobre os doshas, pacifica Vāta e Kapha e agrava Pitta, pela potência quente.
A química explica a interação que mais importa neste verbete. A raiz contém cumarinas — entre elas o osthol e derivados furanocumarínicos — além de ácido ferúlico e de ligustilida, este último o componente principal do óleo essencial. As cumarinas têm ação sobre a coagulação, e as furanocumarinas são fotossensibilizantes. Ambas as propriedades reaparecem nas precauções.
Sobre a atividade estrogênica frequentemente atribuída a ela: os estudos são contraditórios e não sustentam a caracterização de fitoestrógeno no sentido em que a soja o é. A cautela em condições hormônio-sensíveis é mantida por precaução, não por demonstração.
Como usar
A parte usada é a raiz.
Na prática chinesa, a decocção da raiz fatiada é a forma padrão, em doses de 3 a 15 gramas por dia, quase sempre dentro de uma fórmula com outras ervas. A divisão da raiz também importa naquela tradição: a cabeça, o corpo e a cauda têm usos atribuídos diferentes.
No ocidente, a apresentação comum é cápsula de extrato, tipicamente 500 mg uma a três vezes ao dia, quase sempre isolada — que é justamente a forma com menos lastro tradicional.
O uso é cíclico em distúrbios menstruais e, na tradição chinesa, evita-se durante o fluxo intenso, porque a ação de mover o sangue pode aumentá-lo.
Como este verbete descreve uma planta fora da matéria médica ayurvédica, a orientação prática mais útil é a mais simples: se o interesse é o uso tradicional chinês, ele pertence a um praticante de medicina chinesa, que prescreverá em fórmula e não em cápsula isolada.
Precauções e interações
A interação mais importante é com anticoagulantes. As cumarinas da raiz têm ação sobre a coagulação, e há relatos de aumento do INR em pacientes usando varfarina junto com dong quai. A combinação deve ser evitada, e o mesmo vale para antiagregantes. Suspenda antes de cirurgia.
A segunda é fotossensibilidade: as furanocumarinas aumentam a sensibilidade da pele à luz solar, com risco de dermatite. Quem usa deve reduzir exposição ao sol e evitar câmaras de bronzeamento.
Gestação é contraindicação — a ação de mover o sangue e o efeito sobre o útero desaconselham o uso. Amamentação, por ausência de dados, entra na mesma orientação.
Por precaução, o uso é desaconselhado em tumores hormônio-sensíveis e em endometriose, ainda que a atividade estrogênica não esteja demonstrada. Sangramento menstrual intenso e distúrbios hemorrágicos são contraindicações diretas. Diarreia e distensão abdominal desaconselham o uso pela ação umedecedora sobre o intestino.
Pela potência aquecedora, agrava Pitta. Este verbete é referência de estudo, não prescrição.
Perguntas frequentes
Angélica é uma erva ayurvédica?
Não. Angelica sinensis pertence à medicina tradicional chinesa, onde é conhecida como dong quai. Não figura nos Nighaṇṭus, não tem nome sânscrito e está neste acervo como referência comparativa — o rasapañcaka registrado é atribuição por analogia.
Dong quai funciona para menopausa?
O ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo mais citado testou dong quai isolada em fogachos e não encontrou diferença do placebo. Praticantes de medicina chinesa apontam que o uso tradicional é em fórmula, não isolado — mas a indicação popular no ocidente não tem lastro.
Pode tomar dong quai com anticoagulante?
Não. As cumarinas da raiz agem sobre a coagulação, e há relatos de aumento do INR em pacientes usando varfarina junto. A mesma ressalva vale para antiagregantes e no período pré-operatório.
Angélica dá alergia ao sol?
Pode. A raiz contém furanocumarinas, que são fotossensibilizantes e aumentam o risco de dermatite por exposição solar. Quem usa deve reduzir a exposição e evitar bronzeamento artificial.
Dong quai é um fitoestrógeno?
Os estudos são contraditórios e não sustentam essa caracterização no sentido em que a soja é. A cautela em condições hormônio-sensíveis é mantida por precaução, não por demonstração.
Fontes
- Hirata J. D. et al. Does dong quai have estrogenic effects in postmenopausal women? A double-blind, placebo-controlled trial. Fertility and Sterility, 1997. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9418683/
- Page R. L., Lawrence J. D. Potentiation of warfarin by dong quai. Pharmacotherapy, 1999. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10417036/
- Angelica sinensis (Dong quai). Memorial Sloan Kettering Cancer Center — About Herbs. https://www.mskcc.org/cancer-care/integrative-medicine/herbs/dong-quai
- Chen S. et al. Pharmacological effects of Angelica sinensis: a review. Chinese Medicine, 2013. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39872047/