Hortelã

Hortelã (Mentha spicata): rasa Katu, vīrya Sheeta, vipāka Katu. Pacifica Pitta e Kapha. Para que serve, como usar e precauções.

Para que serve

O uso popular brasileiro da hortelã é digestivo e carminativo: chá das folhas para cólica, gases, sensação de estufamento e enjoo, e como bochecho ou aromático para hálito e vias respiratórias altas. Esse uso é tradicional, e é assim que deve ser apresentado — não há ensaio clínico que confirme o efeito digestivo especificamente da Mentha spicata em humanos.

A revisão mais completa sobre a espécie, publicada em 2022 na Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, reúne os usos etnofarmacológicos (diabetes, distúrbios digestivos, queixas respiratórias e afecções de pele) e uma quantidade grande de trabalho in vitro e em roedores, mas praticamente nenhum ensaio randomizado em pessoas. É a situação típica das plantas de uso doméstico: muita farmacologia de bancada, pouca prova clínica.

Há, no entanto, três linhas de pesquisa clínica pequenas e específicas, e nenhuma delas trata do uso digestivo. A primeira é hormonal. Um estudo turco publicado em 2007 na Phytotherapy Research acompanhou mulheres com hirsutismo tomando chá de Mentha spicata duas vezes ao dia e observou queda da testosterona livre. Um ensaio randomizado britânico de 2010, na mesma revista, repetiu o achado em mulheres com síndrome dos ovários policísticos: trinta dias de chá de hortelã reduziram andrógenos livres em comparação com o chá controle. São estudos curtos e de amostra pequena; mostram efeito bioquímico antiandrogênico, não tratamento estabelecido da síndrome.

A segunda é cognitiva, e vale ler com atenção porque não se aplica ao chá. Um ensaio randomizado publicado em 2018 no Journal of Alternative and Complementary Medicine testou um extrato seco padronizado de Mentha spicata, rico em ácido rosmarínico, em adultos com queixa de memória associada à idade, e encontrou melhora em medidas de memória de trabalho. É um extrato industrial em dose fixa — não é a folha do quintal em infusão.

A terceira é articular: um estudo publicado em 2014 no Journal of Medicinal Food avaliou um chá de hortelã enriquecido em ácido rosmarínico na osteoartrite de joelho e relatou melhora de dor e rigidez em relação ao chá comum. De novo, matéria-prima selecionada por teor, não hortelã qualquer.

Como age segundo o Ayurveda

O óleo essencial da hortelã-verde é dominado pela carvona, que na revisão de 2022 aparece entre cerca de 29% e 80% do óleo conforme a procedência, seguida de limoneno, mentona e 1,8-cineol. A ausência relativa de mentol é a diferença química que separa a espécie da hortelã-pimenta e explica por que ela não produz a mesma sensação de frio na boca nem o mesmo efeito espasmolítico intenso atribuído ao mentol.

Essa mesma revisão registra que o teor de pulegona é muito variável entre amostras, podendo ser alto em alguns quimiotipos. A pulegona é o composto hepatotóxico associado ao poejo, e é por causa dela que o assunto óleo essencial de menta exige cautela: a folha em infusão é uma coisa, o óleo concentrado é outra, e o consumidor não tem como saber o quimiotipo do que comprou.

A fração não volátil traz ácido rosmarínico e outros polifenóis, e é a ela que os dois estudos de extrato enriquecido atribuem o efeito — atividade antioxidante e anti-inflamatória em modelos experimentais. O mecanismo do efeito antiandrogênico observado nos estudos com chá não está estabelecido em humanos.

Na leitura ayurvédica aplicada, o par pungente-refrescante descreve bem o comportamento observado: a planta é aromática o bastante para mover gás e estimular a digestão, sem o calor de dravyas como gengibre ou pimenta-longa. Por isso a tradição a coloca onde Pitta está elevado — azia, irritabilidade, calor — e recomenda parcimônia em quem tem Vata alto, seco e agitado.

Como usar

A forma doméstica é a infusão: cerca de uma colher de sopa de folhas frescas ou uma colher de chá de folhas secas por xícara, água fervente despejada sobre a folha, abafada por cinco a dez minutos. Abafar não é detalhe estético — o princípio ativo aromático é volátil e evapora em panela aberta. De uma a três xícaras ao dia é o uso corrente, tomado depois das refeições quando a finalidade é digestiva.

Como alimento — na salada, no suco, no tabule, no molho — não há restrição prática: a quantidade envolvida é pequena e o consumo é milenar.

A monografia brasileira da espécie Mentha x piperita, produzida no âmbito do programa nacional de plantas medicinais e fitoterápicos, dá o parâmetro regulatório mais próximo que existe em português para o grupo das mentas, e registra para a hortelã-pimenta o uso de uma xícara de chá duas a quatro vezes ao dia para cólicas e flatulência. Vale como referência de ordem de grandeza, não como aval para a Mentha spicata: são espécies e composições diferentes.

Óleo essencial é capítulo à parte e não deve ser improvisado. O uso oral de óleo de menta com respaldo regulatório é o da hortelã-pimenta em cápsulas gastrorresistentes, conforme a monografia europeia — cápsulas que devem ser engolidas inteiras, porque mastigá-las libera o óleo cedo demais e provoca ardência. Não existe equivalente aprovado para óleo de Mentha spicata, e ingerir óleo essencial puro, gota a gota, não é uso apoiado por nenhuma monografia.

Para as indicações estudadas com material padronizado — memória e osteoartrite — o que foi testado foram preparações enriquecidas em ácido rosmarínico em dose fixa, e não é possível reproduzir isso com folha de quintal.

Precauções e interações

Refluxo e azia: preparações de menta relaxam o esfíncter esofágico inferior, e a monografia brasileira da Mentha x piperita registra queixas gástricas e agravamento de azia, especialmente em quem tem esofagite de refluxo. Quem tem refluxo e piora com chá de hortelã deve suspender.

Fígado e vias biliares: a mesma fonte contraindica o uso em obstrução biliar e em dano hepático. Some-se a isso a pulegona variável descrita para a Mentha spicata, e a conclusão prática é evitar óleo essencial e extratos concentrados em quem tem doença hepática.

Gestação e amamentação: não há dado suficiente sobre efeitos teratogênicos ou sobre a lactação, e a monografia brasileira orienta não administrar durante gravidez ou amamentação sem supervisão médica. No caso específico da hortelã-verde há um motivo adicional: o efeito antiandrogênico observado nos estudos com chá torna o uso medicinal continuado desaconselhável na gestação. Uso culinário eventual é outra conversa.

Crianças: a via oral não é recomendada abaixo de oito anos para óleo de menta, segundo a monografia europeia refletida no texto brasileiro, e aplicação nasal ou facial de preparações mentoladas em lactentes e crianças pequenas é proscrita pelo risco de espasmo de glote. Chá fraco de folha em criança maior é prática doméstica corrente, mas não deve virar tratamento diário.

Interações: o óleo de hortelã-pimenta inibe o citocromo P450 3A4 e pode aumentar a biodisponibilidade oral da ciclosporina, conforme registra a monografia brasileira. A precaução se estende, por prudência, a quem usa imunossupressores e outros medicamentos de janela terapêutica estreita metabolizados por essa via. Antiácidos e alimentos tomados junto podem dissolver cedo demais o revestimento de cápsulas gastrorresistentes.

Hormônios: quem faz tratamento hormonal, trata infertilidade ou tem androgênios baixos deve conversar com o médico antes de usar chá de hortelã de forma continuada, justamente por causa do efeito antiandrogênico documentado.

Duração: uso digestivo é sintomático e pontual. Sintoma digestivo que persiste por mais de duas semanas pede avaliação médica, não mais chá.

Perguntas frequentes

Hortelã e hortelã-pimenta são a mesma planta?

Não. A hortelã comum brasileira é Mentha spicata, dominada pela carvona; a hortelã-pimenta é Mentha x piperita, híbrida e rica em mentol. É a hortelã-pimenta que tem monografia regulatória europeia e brasileira, inclusive para óleo em cápsulas na síndrome do intestino irritável. Boa parte do que se lê sobre "hortelã" na internet vale para a pimenta e é aplicada indevidamente à verde.

Chá de hortelã resolve má digestão e gases?

É o uso tradicional mais firme da planta, e a experiência popular é ampla, mas não há ensaio clínico randomizado que confirme o efeito digestivo especificamente da Mentha spicata em humanos. A recomendação honesta é tratá-lo como recurso caseiro sintomático: se o desconforto persistir mais de duas semanas, o caso é de avaliação médica.

É verdade que chá de hortelã reduz testosterona?

Dois estudos publicados na Phytotherapy Research, um em 2007 com mulheres com hirsutismo e um ensaio randomizado de 2010 em mulheres com ovários policísticos, observaram queda da testosterona livre com chá de Mentha spicata duas vezes ao dia. São amostras pequenas e prazos curtos: o achado é bioquímico e real, mas não faz do chá um tratamento estabelecido. Vale como alerta para quem não quer esse efeito.

Homem pode tomar chá de hortelã?

O uso culinário e o chá ocasional não são motivo de preocupação. O consumo medicinal diário e prolongado merece cautela por causa do sinal antiandrogênico descrito nos estudos com mulheres, sobretudo em quem trata infertilidade ou já tem testosterona baixa. Não há ensaio que tenha medido esse desfecho em homens.

A hortelã é uma erva ayurvédica clássica?

Não. O gênero Mentha é do Velho Mundo mediterrâneo e entrou no uso indiano pela via popular, sob o nome vernacular pudina, sem lastro nos tratados clássicos. O que se faz é aplicar a leitura ayurvédica à planta: sabor pungente, potência refrescante, efeito pós-digestivo pungente, aumentando Vata e acalmando Pitta e Kapha. Isso é enquadramento, não tradição textual.

Posso usar óleo essencial de hortelã por via oral?

Não por conta própria. O único uso oral de óleo de menta com respaldo regulatório é o da hortelã-pimenta em cápsulas gastrorresistentes, em dose definida. Óleo essencial de Mentha spicata não tem monografia equivalente, e o teor de pulegona — composto hepatotóxico — varia muito entre amostras da espécie. Ingerir gotas de óleo puro é risco sem respaldo.

Grávida pode tomar chá de hortelã?

A hortelã na comida não está em questão. Como chá medicinal tomado todo dia, não: faltam dados sobre efeitos na gestação e na lactação, a monografia brasileira das mentas pede supervisão médica nessas condições, e o efeito antiandrogênico observado é motivo adicional para evitar o uso continuado.

Fontes

  • Ministério da Saúde (Brasil), Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Monografia da espécie Mentha x piperita L. (hortelã-pimenta). Consulta pública, 2017. https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/consultas-publicas/2017/arquivos/MonografiaMenthapiperita.pdf
  • European Medicines Agency, Committee on Herbal Medicinal Products (HMPC). European Union herbal monograph on Mentha x piperita L., aetheroleum — revision 1. https://www.ema.europa.eu/en/documents/herbal-monograph/european-union-herbal-monograph-mentha-x-piperita-l-aetheroleum-revision-1_en.pdf
  • El Menyiy N, Mrabti HN, El Omari N, et al. Medicinal Uses, Phytochemistry, Pharmacology, and Toxicology of Mentha spicata. Evid Based Complement Alternat Med. 2022;2022:7990508. PMID 35463088. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35463088/
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