Romã

Romã (Punica granatum): rasa Madhura e Kashaya, vīrya Sheeta, vipāka Madhura. Pacifica Pitta. Para que serve, como usar e precauções.

Para que serve

É preciso separar três partes da planta, porque elas não servem para a mesma coisa e não têm o mesmo risco. O arilo (a semente suculenta que se come), a casca do fruto (o pericarpo) e a casca da raiz e do caule são três materiais distintos.

O fruto é o que a tradição ayurvédica prescreve como alimento medicinal. Dadima é classificada como hṛdya (boa para o coração), rocana (que desperta o apetite), dīpana e pācana (que acende e completa a digestão) e grāhī (que retém, no sentido de firmar as fezes soltas). O paciente típico do Ayurveda para romã é o de Pitta agravado: sede excessiva, azia, sensação de queimação, intestino solto, língua vermelha. Como o vipāka é doce, ela também é lida como nutritiva do sangue e do fígado, e entra em convalescença e anemia.

A casca do fruto é a parte com registro regulatório no Brasil. O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira traz a romã como preparação de uso externo para a cavidade oral, com ação anti-inflamatória e antisséptica — bochecho e gargarejo em faringite, amigdalite, gengivite e aftas. É rica em taninos hidrolisáveis (punicalaginas e ácido elágico), e é a adstringência desses taninos, não uma ação sistêmica, que explica o alívio da mucosa inflamada.

A pesquisa clínica moderna concentrou-se no suco e no extrato do fruto, sobretudo em pressão arterial. Uma metanálise de 2024 na Phytotherapy Research reuniu 22 ensaios randomizados e observou queda de 7,87 mmHg na pressão sistólica e de 3,23 mmHg na diastólica, com efeito maior em quem partia de sistólica acima de 130 mmHg. Uma metanálise anterior, de 2017 na Pharmacological Research, já apontava a mesma direção para o suco. O tamanho do efeito é interessante, mas os próprios autores registram heterogeneidade altíssima entre os estudos (I² acima de 90%) e pedem ensaios de melhor qualidade. Traduzindo para a clínica: a romã é um coadjuvante alimentar razoável em pressão limítrofe, não um substituto de anti-hipertensivo.

A casca da raiz é o capítulo antigo e perigoso. Foi usada por séculos como vermífugo contra tênia, e a atividade vem dos alcaloides do tipo peletierina. Um trabalho de 2026 na Molecules confirmou a ação anti-nematoide desses alcaloides e localizou-a na raiz, não no fruto. Esse uso foi abandonado pela terapêutica moderna por margem de segurança estreita — não porque não funcionava.

Como age segundo o Ayurveda

Pelo rasapañcaka, o fruto da romã é lido assim: rasa kaṣāya predominante, com madhura e amla presentes (adstringente, doce e ácido); vīrya śīta (potência refrescante); vipāka madhura (efeito pós-digestivo doce). O resultado é uma substância que reduz Pitta e Kapha e é neutra ou levemente agravante para Vāta, se consumida em excesso e crua.

Ler a sequência explica a clínica. A adstringência é o que firma o tecido: ela contrai a mucosa, reduz a secreção e é a razão de a romã aparecer em diarreia e em inflamação de boca e garganta. A potência fria é o que apaga o calor de Pitta — queimação, sede, irritabilidade. E o vipāka doce é o que impede que ela seja apenas um adstringente que resseca: o efeito final ainda nutre os dhātus. É por isso que a tradição a considera aceitável em uso prolongado como alimento, coisa que não diria de um adstringente puro.

Do lado bioquímico, a casca e o suco são dominados por elagitaninos, principalmente as punicalaginas. Elas não são bem absorvidas como tal: a microbiota intestinal as converte em urolitinas, e é a essas moléculas que se atribui boa parte do efeito sistêmico observado. Como a conversão depende da flora de cada pessoa, a resposta varia bastante entre indivíduos — outra razão pela qual os ensaios divergem tanto.

Vale marcar o limite da explicação: o mecanismo antioxidante costuma ser oferecido como se explicasse tudo, e não explica. A queda de pressão observada nos ensaios não foi mecanisticamente esclarecida, e afirmar que "a romã baixa a pressão porque é antioxidante" é uma frase confortável sem sustentação.

Como usar

Como alimento, o fruto fresco é a forma que o Ayurveda prefere: os arilos in natura, ou o suco espremido na hora, tomado pela manhã ou entre refeições. A tradição recomenda a romã doce para quadros de Pitta e a variedade mais ácida para quem precisa acender o apetite. Nos ensaios de pressão arterial, as doses de suco ficaram em geral entre 150 e 500 mL por dia, por 2 a 12 semanas — quantidade que carrega açúcar suficiente para importar em quem tem diabetes.

Para uso oral e de garganta, a preparação com registro no Formulário de Fitoterápicos é a infusão da casca do fruto seca, na proporção aproximada de 6 g para 150 mL de água fervente, abafada por cerca de 10 minutos e coada. Usa-se em bochecho ou gargarejo, três vezes ao dia, sem engolir. A mesma casca também aparece como tintura, obtida por maceração do pericarpo seco em etanol 70%, diluída antes do gargarejo. É uso tópico: a via oral de decocto concentrado de casca não tem respaldo e não deve ser improvisada.

Nas formulações clássicas, Dadima entra em preparações como o Dadimashtaka churna, pó composto usado em digestão fraca e diarreia crônica, e o suco do fruto é veículo de outras substâncias em quadros de Pitta.

Duração: o fruto é alimento e não tem limite. A casca em bochecho é para uso agudo — até a inflamação ceder, tipicamente uma a duas semanas. Se a dor de garganta ou a lesão na boca persistir além disso, o problema é diagnóstico, não de dose.

Precauções e interações

A interação mais relevante é farmacológica e está bem documentada: constituintes da romã inibem as enzimas CYP3A4 e CYP2C9 do citocromo P450. Uma revisão de 2023 na Molecules reuniu os dados pré-clínicos e clínicos e registrou prolongamento do efeito farmacodinâmico da varfarina e da sildenafila, além de aumento da absorção de fármacos como buspirona, nitrendipino, metronidazol e saquinavir. Na prática: quem usa varfarina, estatinas, imunossupressores, bloqueadores de canal de cálcio ou antirretrovirais deve tratar o suco de romã em quantidade terapêutica como se trata o suco de toranja — e conversar com quem prescreve antes, não depois. Os autores ressalvam que os ensaios humanos usaram dose única, enquanto os efeitos mais fortes apareceram com uso prolongado em modelos animais.

A casca da raiz e do caule contém alcaloides do tipo peletierina e não deve ser usada em automedicação. O quadro de intoxicação descrito na literatura clássica inclui tontura, confusão mental e fraqueza muscular acentuada. Só o fruto e a casca do fruto têm perfil de segurança aceitável para uso doméstico.

Em gestação, o fruto como alimento é seguro nas quantidades habituais da dieta. Já a casca e sobretudo a raiz devem ser evitadas: não há estudo de segurança que as sustente e há relato tradicional de uso abortivo da raiz. Na lactação, a mesma divisão vale — fruta liberada, extrato concentrado sem dados.

Pela adstringência acentuada, doses altas de casca podem causar constipação, náusea e desconforto gástrico, e os taninos reduzem a absorção de ferro e de outros minerais quando tomados junto às refeições. Quem trata anemia com ferro oral deve espaçar em pelo menos duas horas. Reações alérgicas ao fruto existem, são raras e podem ser graves em quem já tem alergia a outras frutas. Em quem tem Vāta agravado — intestino seco, gases, pele ressecada — o excesso de adstringente piora o quadro.

Perguntas frequentes

A romã é mesmo uma planta do Ayurveda ou é adaptação brasileira?

É dravya clássico de verdade. Aparece nos tratados como Dadima, com sabor adstringente-doce-ácido, potência refrescante e vipāka doce, indicada para Pitta agravado, digestão fraca e diarreia. É um dos poucos casos em que a fruta comum no quintal brasileiro coincide com o dravya indiano — a planta é a mesma espécie.

Suco de romã baixa a pressão?

A evidência aponta nessa direção, com ressalvas. Uma metanálise de 2024 com 22 ensaios randomizados encontrou queda média de 7,87 mmHg na sistólica e 3,23 mmHg na diastólica, maior em quem já tinha pressão elevada. Mas a heterogeneidade entre os estudos passa de 90%, e os próprios autores pedem ensaios melhores. Serve como coadjuvante alimentar, não substitui anti-hipertensivo prescrito.

Posso tomar suco de romã se uso varfarina?

Não sem falar com quem prescreve. Constituintes da romã inibem CYP3A4 e CYP2C9, e há registro de prolongamento do efeito da varfarina. O risco é o mesmo tipo de problema do suco de toranja: a interação não é teórica. Quantidades pequenas na dieta são outra conversa, mas suco diário em volume terapêutico precisa de aval e de controle do INR.

Para que serve a casca da romã?

É a parte com registro no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, indicada como anti-inflamatória e antisséptica para a cavidade oral, em uso externo. Faz-se infusão da casca seca e usa-se em bochecho ou gargarejo, sem engolir, em faringite, gengivite e aftas. O efeito vem dos taninos, que contraem a mucosa inflamada.

A raiz da romã serve para vermes?

Serviu, historicamente, e é justamente por isso que preocupa. A casca da raiz contém alcaloides do tipo peletierina, cuja ação antiparasitária foi confirmada em trabalho de 2026. Só que a margem entre a dose ativa e a dose tóxica é estreita: a intoxicação cursa com tontura, confusão mental e fraqueza muscular. A terapêutica moderna abandonou esse uso, e não é caso para preparo caseiro.

Quem tem diabetes pode tomar suco de romã?

Com cautela e contando o açúcar. As doses usadas nos ensaios — 150 a 500 mL por dia — carregam carboidrato suficiente para alterar a glicemia. Comer os arilos inteiros é melhor que beber o suco, porque a fibra atenua o pico. Quem usa hipoglicemiante deve monitorar antes de tornar o suco um hábito diário.

A romã atrapalha a absorção de ferro?

Os taninos da casca e, em menor grau, do suco, ligam-se a ferro e a outros minerais e reduzem sua absorção quando ingeridos junto à refeição ou ao suplemento. Quem trata anemia com ferro oral deve espaçar em pelo menos duas horas. É uma ironia prática: a tradição indica a romã na anemia pelo vipāka doce, e o tanino trabalha contra se o horário estiver errado.

Fontes

  • Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira (Anvisa) — Punica granatum L., casca do fruto, infusão e tintura para uso na cavidade oral.
  • Bhāvaprakāśa Nighaṇṭu — Dadima (Punica granatum), rasa, vīrya e indicações clássicas.
  • The effects of pomegranate consumption on blood pressure in adults: A systematic review and meta-analysis. Phytother Res, 2024. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38410857/
  • Effects of pomegranate juice on blood pressure: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Pharmacol Res, 2017. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27888156/
  • Impact of Pomegranate Juice on the Pharmacokinetics of CYP3A4- and CYP2C9-Mediated Drugs Metabolism: A Preclinical and Clinical Review. Molecules, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36903363/
  • The Truth Behind the Myth of Pomegranate Tree Root: Proofs on Anti-Nematode and Anti-Feeding Properties of Pelletierine-like Alkaloids. Molecules, 2026. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42075933/