Valeriana
Valeriana (Valeriana officinalis): rasa Tikta e Katu e Madhura, vīrya Ushna, vipāka Katu. Pacifica Vata e Kapha. Para que serve, como usar e precauções.
Para que serve
A indicação da valeriana é estreita e bem delimitada: tensão nervosa leve e distúrbios do sono. É essa a redação da monografia da União Europeia adotada pelo HMPC e traduzida pela Anvisa, que reconhece dois enquadramentos distintos para a mesma raiz. Como uso bem estabelecido, para o alívio de tensão nervosa leve e distúrbios do sono. Como produto tradicional, para o alívio dos sintomas leves de estresse mental e como auxiliar ao sono, aqui exclusivamente com base no longo histórico de uso.
A distinção importa mais do que parece. "Uso bem estabelecido" e "uso tradicional" não são sinônimos com rótulos diferentes: o primeiro se apoia em ensaios clínicos, o segundo apenas no tempo de emprego. E é exatamente nesse ponto que a literatura recente ficou desconfortável.
Duas revisões grandes chegaram a conclusões opostas. Shinjyo, Waddell e Green (2020) analisaram 60 estudos com quase 6.900 participantes e concluíram que a valeriana pode ser uma erva segura e eficaz para promover o sono, atribuindo a inconsistência dos resultados anteriores à qualidade variável dos extratos — os efeitos mais confiáveis apareceram com a raiz e o rizoma inteiros, não com extratos processados. Já Valente e colaboradores (2024), numa revisão guarda-chuva publicada no European Neuropsychopharmacology, concluíram o contrário: não há evidência de eficácia para o tratamento da insônia. Houve melhora relatada na qualidade subjetiva do sono, mas as medidas objetivas não a sustentaram, e os estudos existentes são escassos, heterogêneos e de baixa qualidade metodológica.
A leitura honesta é essa: a valeriana tem registro regulatório, um histórico de uso de séculos e um bom perfil de segurança — os dois trabalhos concordam nesse último ponto —, mas a demonstração de que ela melhora o sono medido, e não apenas o sono percebido, permanece em aberto. Quem a prescreve está trabalhando com uma planta de risco baixo e benefício incerto, o que é uma posição legítima em insônia leve, e não é a mesma coisa que um efeito comprovado.
No enquadramento ayurvédico, a raiz responde ao Vāta agravado que se manifesta como mente acelerada, sono superficial e inquietação noturna — o mesmo território clínico que a tradição indiana atribui a Tagara.
Como age segundo o Ayurveda
Pelos parâmetros do rasapañcaka, a valeriana registrada neste acervo tem rasa amargo, picante e doce, vīrya uṣṇa (potência aquecedora) e vipāka picante. Sobre os doshas: reduz Vāta e Kapha, e eleva Pitta.
A combinação é menos óbvia do que a de um sedativo típico. O amargo e o picante secam e movem, o que normalmente agravaria Vāta; é a presença do doce e a qualidade pesada do rizoma que ancoram o conjunto e explicam o efeito de assentamento. A potência aquecedora é a razão de a raiz não pesar sobre a digestão como um calmante frio pesaria — e é também a razão de ela não servir a todo mundo, já que quem tem calor em excesso tende a piorar com ela. O vipāka picante fecha a leitura: o efeito residual é de movimento, não de nutrição. A valeriana acalma desobstruindo e conduzindo Vāta para baixo, não alimentando o tecido. Por isso ela não é um rasāyana e não faz o que Ashwagandha faz em quadro de depleção.
Do lado farmacológico, o mecanismo não está estabelecido. A hipótese mais citada envolve o ácido valerênico e a modulação de receptores GABA-A, com contribuição dos valepotriatos e do óleo essencial do rizoma, mas a avaliação regulatória europeia não elegeu um princípio ativo responsável, e a monografia descreve a raiz como um todo, sem marcador de eficácia. Essa indefinição tem consequência prática: como não se sabe qual constituinte importa, extratos padronizados por solventes diferentes não são intercambiáveis, e a própria monografia lista mais de uma dezena de preparações distintas, cada uma com sua própria dose. Foi essa dispersão que Shinjyo e colegas apontaram como causa provável da inconsistência dos ensaios.
Como usar
As partes usadas são a raiz e o rizoma. A monografia europeia traduzida pela Anvisa traz doses separadas por preparação, e vale conhecer as duas escalas principais.
Como uso bem estabelecido, a referência é o extrato seco hidroalcoólico: dose individual de 400 a 600 mg. Para tensão nervosa leve, até três vezes ao dia. Para distúrbios do sono, uma dose de meia a uma hora antes de deitar, com uma dose anterior no começo da noite se necessário. A dose máxima diária é de quatro doses individuais.
Como uso tradicional, a forma mais simples é o chá: 0,3 a 3 g da raiz rasurada em 150 mL de água fervente, em infusão. O mesmo intervalo de 0,3 a 3 g vale para a substância vegetal em outras apresentações, até três vezes ao dia para estresse mental leve, ou uma dose de meia a uma hora antes de dormir. Tinturas e extratos líquidos têm doses próprias e bem menores em volume — de 0,3 a 1 mL para o extrato líquido etanólico 1:1, de 4 a 8 mL para a tintura 1:8 —, e o rótulo do produto específico é a única referência confiável, porque as proporções de extração variam muito entre fabricantes.
O ponto que mais gera abandono do tratamento é o tempo de resposta. A monografia é explícita: devido ao início gradual da eficácia, a raiz de valeriana não é adequada para o tratamento agudo da tensão nervosa leve ou dos distúrbios do sono. Para atingir o efeito ideal, recomenda-se uso continuado por 2 a 4 semanas. Quem toma uma dose numa noite ruim esperando o efeito de um hipnótico vai concluir que não funciona — e, pelo desenho da planta, estaria julgando o remédio errado.
A contrapartida desse mesmo prazo é um limite: se os sintomas persistirem ou piorarem após duas semanas de uso contínuo, a orientação é procurar um médico ou farmacêutico. Insônia que não cede em duas semanas costuma ter causa que a raiz não alcança.
A valeriana também é usada como aditivo de banho na tradição europeia, na dose de 100 g por banho completo, temperatura de 34 a 37 °C e duração de 10 a 20 minutos, no máximo um banho por dia.
Precauções e interações
A contraindicação formal é única e simples: hipersensibilidade à raiz. O resto das precauções é mais relevante na prática do que essa lista curta sugere.
Dirigir e operar máquinas. A monografia é categórica, e não em tom de sugestão: a valeriana pode prejudicar a habilidade de dirigir e operar máquinas, e pessoas em uso do produto não devem dirigir nem operar máquinas. É a advertência mais ignorada da planta, provavelmente porque "natural" é lido como "sem efeito sedativo real".
Idade. O uso não é recomendado em menores de 12 anos, por ausência de dados adequados de segurança e eficácia — ausência de dados, não demonstração de risco, mas a conduta prudente é a mesma.
Gestação e lactação. A segurança não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso durante a gravidez e a amamentação não é recomendado. Também não há dados sobre fertilidade.
Fígado. O LiverTox, base do NIH, classifica a valeriana com escore de probabilidade C: causa provável, porém rara, de lesão hepática clinicamente evidente. O padrão descrito é hepatocelular ou misto, com latência de 3 a 12 semanas e gravidade leve a moderada, com resolução em 2 a 4 meses. A causalidade não está estabelecida — nenhum constituinte foi apontado como hepatotóxico, e os casos relatados envolveram em geral produtos combinados com outras plantas, como scutelária ou cimicífuga, o que deixa em aberto se a lesão veio da valeriana, de outro componente ou de um contaminante. Não há insuficiência hepática aguda nem cirrose convincentemente atribuídas à raiz isolada. Ainda assim, icterícia, urina escura ou prurido durante o uso pedem suspensão imediata e avaliação médica.
Interações. A monografia europeia registra "nenhuma relatada". Isso não autoriza combinar a raiz com álcool, benzodiazepínicos, hipnóticos ou qualquer depressor do sistema nervoso central: a própria advertência sobre dirigir reconhece que há sedação, e sedação somada a sedação é uma conta previsível, mesmo sem estudo de interação publicado.
Efeitos indesejáveis e sobredose. Podem ocorrer sintomas gastrointestinais — náusea e cólicas abdominais — após a ingestão, com frequência não conhecida. Doses da ordem de 20 g de raiz causaram fadiga e cólica abdominal, entre outros sintomas.
Pelo lado ayurvédico, a ressalva é a potência aquecedora: em constituição ou desequilíbrio Pitta — azia, gastrite, irritabilidade, pele reativa —, a valeriana isolada tende a agravar, e o quadro pede uma calmante refrescante no lugar dela. Vale registrar também o efeito paradoxal descrito na prática clínica: parte dos pacientes reage à raiz com agitação em vez de sono, e nesses casos insistir na dose costuma piorar.
Perguntas frequentes
A valeriana faz efeito já na primeira noite?
Não é para isso que ela serve. A monografia europeia afirma que, devido ao início gradual da eficácia, a raiz de valeriana não é adequada ao tratamento agudo da tensão nervosa leve ou dos distúrbios do sono, e recomenda uso continuado por 2 a 4 semanas para atingir o efeito ideal. Julgar o resultado após uma dose é julgar a planta pelo que ela não promete.
A valeriana realmente funciona para insônia?
A resposta honesta é que a evidência está dividida. A metanálise de Shinjyo e colegas (2020), com 60 estudos, concluiu que a valeriana pode ser segura e eficaz para promover o sono. A revisão guarda-chuva de Valente e colaboradores (2024) concluiu que não há evidência de eficácia para insônia: houve melhora subjetiva relatada, mas as medidas objetivas não a confirmaram, e os estudos são heterogêneos e de baixa qualidade metodológica. Há registro regulatório e bom perfil de segurança; a comprovação de efeito medido segue em aberto.
Valeriana é a mesma coisa que Tagara?
Não. Tagara, a valeriana citada nos textos ayurvédicos, é Valeriana wallichii, espécie do Himalaia. A Valeriana officinalis é europeia e entrou na prática ayurvédica brasileira como análogo disponível, não como equivalente dos tratados. São do mesmo gênero e ocupam território clínico parecido — Vāta agravado com sono superficial —, mas atribuir à officinalis a tradição escrita sobre Tagara seria impreciso.
Posso tomar valeriana junto com calmante ou indutor do sono?
Não sem orientação médica. A monografia europeia registra "nenhuma interação relatada", o que reflete ausência de estudos e não segurança demonstrada. A própria monografia adverte que a raiz pode prejudicar a capacidade de dirigir e operar máquinas, ou seja, reconhece sedação. Somar valeriana a álcool, benzodiazepínicos ou outros depressores do sistema nervoso central potencializa esse efeito de forma previsível.
Valeriana faz mal ao fígado?
O risco existe, mas é raro. O LiverTox, do NIH, atribui à valeriana o escore de probabilidade C — causa provável, porém rara, de lesão hepática clinicamente evidente —, com padrão hepatocelular ou misto, latência de 3 a 12 semanas e resolução em 2 a 4 meses após a suspensão. A causalidade não está estabelecida: nenhum constituinte foi identificado como hepatotóxico e os casos descritos envolveram, em geral, produtos combinados com outras plantas. Icterícia, urina escura ou coceira durante o uso pedem suspensão e avaliação médica.
Qual a diferença entre tomar o chá e tomar a cápsula de extrato?
São escalas diferentes e não se convertem uma na outra. O chá tradicional usa de 0,3 a 3 g da raiz rasurada em 150 mL de água fervente. A cápsula de uso bem estabelecido usa 400 a 600 mg de extrato seco hidroalcoólico, que corresponde a uma quantidade muito maior de raiz. Como o solvente e a proporção de extração variam entre fabricantes, e a monografia lista mais de uma dezena de preparações com doses próprias, o rótulo do produto específico é a referência a seguir.
Grávidas e crianças podem usar valeriana?
Não é recomendado. A segurança na gestação e na lactação não foi estabelecida e, na ausência de dados suficientes, a monografia europeia desaconselha o uso nos dois períodos. Para menores de 12 anos, o uso também não é recomendado, por falta de dados adequados de segurança e eficácia.
Fontes
- European Medicines Agency (HMPC). Valerianae radix — European Union herbal monograph on Valeriana officinalis L., radix. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/herbal/valerianae-radix
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Valeriana officinalis L., radix — tradução da European Union herbal monograph (EMA/HMPC/150848/2015), aprovada pelo HMPC em 02 de fevereiro de 2016. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/setorregulado/regularizacao/medicamentos/fitoterapicos-dinamizados-e-especificos/monografias-traduzidas/valeriana_officinalis_raizp.pdf
- Valente V, Machado D, Jorge S, Drake CL, Marques DR. Does valerian work for insomnia? An umbrella review of the evidence. Eur Neuropsychopharmacol. 2024 May;82:6-28. PMID 38359657. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38359657/
- Shinjyo N, Waddell G, Green J. Valerian Root in Treating Sleep Problems and Associated Disorders — A Systematic Review and Meta-Analysis. J Evid Based Integr Med. 2020;25:2515690X20967323. PMID 33086877. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33086877/
- LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury — Valerian. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK), NIH. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK548255/