Calêndula
Calêndula (Calendula officinalis): rasa Tikta e Katu, vīrya Sheeta, vipāka Katu. Pacifica Pitta e Kapha. Para que serve, como usar e precauções.
Para que serve
A calêndula tem uma indicação central e ela é estreita: inflamação leve de pele e de mucosa, e apoio à cicatrização de feridas pequenas. A monografia da Agência Europeia de Medicamentos (EMA/HMPC), revisada em 2018, reconhece exatamente dois usos tradicionais — tratamento sintomático de inflamações menores da pele, como queimadura solar, e auxílio na cicatrização de feridas pequenas; e tratamento sintomático de inflamações menores da boca ou da garganta. Nada além disso.
O Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira diz a mesma coisa em outras palavras: uso externo como anti-inflamatório, cicatrizante e antisséptico, para o tratamento de lesões da pele e das mucosas. A planta é fitoterápico isento de prescrição médica no Brasil, o que explica sua onipresença em pomadas de farmácia, cremes infantis e sabonetes — e também a confusão que se instalou em torno dela.
Porque a distância entre o que a calêndula é usada para fazer e o que ela tem registro para fazer é grande. Chá de calêndula para fígado, para menstruação, para desintoxicar, cápsula de calêndula para inflamação interna: nada disso aparece em monografia regulatória, brasileira ou europeia. As duas descrevem uma planta de uso tópico e oromucoso. Um bochecho é uso oromucoso; engolir o chá não é.
A evidência clínica é irregular e vale separar por desfecho. Para cicatrização de feridas, uma revisão sistemática publicada na Wound Repair and Regeneration em 2019 reuniu 14 estudos — 7 em animais e 7 clínicos — e encontrou, em feridas agudas, resolução mais rápida da fase inflamatória e mais tecido de granulação. Em feridas crônicas e queimaduras o resultado se dispersa: dois estudos em úlcera venosa foram positivos, um ensaio randomizado em úlcera de perna diabética não mostrou benefício. Os autores concluíram que há alguma evidência de efeito, e que faltam ensaios grandes e bem desenhados.
Para radiodermatite — a queimadura de pele da radioterapia — a história é mais instrutiva. Um ensaio randomizado de fase III publicado no Journal of Clinical Oncology em 2004, com 254 mulheres irradiadas após cirurgia de mama, comparou pomada de calêndula com trolamina: dermatite aguda de grau 2 ou maior ocorreu em 41% das pacientes com calêndula contra 63% com trolamina, diferença estatisticamente significativa. Foi esse estudo que colocou a planta na pauta oncológica. Mas uma revisão sistemática com metanálise publicada no Supportive Care in Cancer em 2023, avaliando agentes naturais para prevenção de radiodermatite aguda, não encontrou efeito significativo da calêndula no conjunto dos estudos — apenas enzimas orais e azeite de oliva reduziram a incidência. A leitura honesta é que um ensaio isolado forte não sobreviveu ao agrupamento com os demais.
O que sustenta a calêndula, portanto, é uso tradicional consolidado e registro regulatório para queixas leves e autolimitadas, não evidência clínica robusta. Isso é suficiente para uma pomada de arranhão ou um gargarejo de garganta irritada, e insuficiente para tratar ferida crônica sem acompanhamento.
Como age segundo o Ayurveda
Pelo rasapañcaka, a calêndula é tikta e kaṭu (sabor amargo e picante), vīrya śīta (potência refrescante) e vipāka kaṭu (efeito pós-digestivo picante). Sobre os doshas: reduz Pitta e Kapha e é neutra a levemente equilibrante para Vāta.
Essa sequência explica o comportamento tópico da flor melhor do que a lista de indicações. O sabor amargo é o rasa por excelência do anti-inflamatório na tradição: seca a umidade, limpa e resfria o tecido inflamado. A potência refrescante age contra o excesso de Pitta que a pele mostra como vermelhidão, calor e ardência — queimadura solar, eczema quente, mucosa oral irritada são todos quadros de Pitta na leitura ayurvédica, e uma substância aquecedora pioraria cada um. O picante do sabor e do vipāka impede que a flor seja apenas um refrescante inerte: dá a ela a qualidade dispersante que a tradição associa à reabsorção de inchaço e contusão.
Repare que o vipāka picante também é o motivo de a calêndula não ser um bom candidato a uso interno prolongado. Efeito pós-digestivo picante é secante e agrava Vāta com o tempo, e nada na tradição nem na regulação sustenta a flor como tônico ingerido.
A química conhecida acompanha essa leitura. O Memento Fitoterápico lista como classes principais óleo essencial, carotenoides, triterpenos, esteroides, saponinas, ácidos fenólicos, flavonoides e antocianinas. Os triterpenos — em especial os monoésteres de faradiol — são os constituintes com atividade anti-inflamatória mais bem documentada em ensaios pré-clínicos de edema de orelha em camundongo, com percentuais de inibição na faixa de 45 a 73%. Os carotenoides dão a cor laranja e são o motivo de a droga vegetal oficial ser a flor, não a folha.
Como usar
Todas as formas reconhecidas são de aplicação externa ou de bochecho. A parte usada é a flor.
Infusão: 1 a 2 g de flores em 150 mL de água. A monografia europeia manda usar a infusão ainda morna para embeber compressas, aplicadas 2 a 4 vezes ao dia e retiradas depois de 30 a 60 minutos. O Memento Fitoterápico indica aplicação três vezes ao dia com auxílio de algodão, ou na forma de bochechos e gargarejos.
Tintura: no Brasil, 1:10 em álcool 70% ou 1:5 em álcool 90%. Para bochecho ou gargarejo, o Memento manda diluir 25 mL de tintura em 100 mL de água. A monografia europeia trabalha com tintura 1:5 em etanol 70-90%, diluída pelo menos 1:3 em água fervida e resfriada para compressa, ou a 2% como solução de bochecho.
Creme, gel e pomada: o padrão brasileiro é formulação com 10% de extrato glicólico ou de tintura, aplicada três vezes ao dia em eczemas e uma vez ao dia em feridas. A monografia europeia aceita preparações semissólidas equivalentes a 2 a 10% da droga vegetal, aplicadas em camada fina 2 a 4 vezes ao dia. Óleo de calêndula (extrato 1:10 em óleo vegetal fixo, tipicamente azeite) entra em semissólidos a 2-8%.
Duração: a monografia europeia é explícita — se os sintomas persistirem por mais de uma semana de uso, procurar um profissional de saúde. Calêndula é recurso para queixa leve e autolimitada, não tratamento de curso longo sem acompanhamento.
Precauções e interações
A contraindicação que mais pega na prática é a alergia cruzada. A calêndula é Asteraceae, a mesma família da arnica, da camomila, do girassol e da artemísia. Quem já reagiu a qualquer uma delas tem risco de reagir a esta, e a monografia europeia registra sensibilização cutânea como efeito indesejável de frequência desconhecida. Ironia útil de lembrar: a planta usada para acalmar pele irritada é ela própria causa possível de dermatite de contato. Ao começar uma pomada, teste primeiro numa área pequena.
Gestação e lactação: contraindicada. O Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira é direto ao vetar o uso na gravidez e na amamentação, e o Memento registra relatos de efeito espermicida, antifertilizante e uterotônico. A monografia europeia adota a fórmula mais cautelosa — segurança não estabelecida, uso não recomendado por ausência de dados. Não há dados de fertilidade.
Crianças: para uso na pele, a monografia europeia não recomenda abaixo de 6 anos; para bochecho e gargarejo, abaixo de 12. O motivo em ambos os casos é falta de dados adequados, não toxicidade demonstrada. O Memento brasileiro é mais amplo e pede supervisão médica para criança de qualquer idade.
Ferida infectada não é caso de calêndula. A própria monografia europeia manda procurar um profissional se aparecerem sinais de infecção ou se os sintomas piorarem durante o uso. Vale o mesmo para ferida profunda, ferida que não fecha, úlcera de perna e pé diabético — aqui não se trata de escolher entre pomada de calêndula e outra pomada, e sim de avaliação clínica.
Interações: nem a monografia europeia nem o Memento Fitoterápico encontraram interações medicamentosas descritas. Isso é esperado num produto de uso tópico e não deve ser lido como licença para ingerir a planta.
Sobre o uso interno, a posição das duas monografias é o silêncio, e silêncio regulatório não é aprovação. Não há indicação, posologia nem avaliação de segurança para calêndula bebida ou em cápsula em nenhuma das duas fontes.
Perguntas frequentes
Pode tomar chá de calêndula?
As monografias não sustentam isso. Tanto a Agência Europeia de Medicamentos quanto o Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira descrevem a calêndula como planta de uso externo e oromucoso — compressa, creme, bochecho, gargarejo. Bochechar a infusão está previsto; engolir não. Some a isso os relatos de efeito uterotônico e antifertilizante registrados no Memento, e o chá ingerido fica sem respaldo e sem posologia de segurança.
Calêndula funciona mesmo para cicatrizar ferida?
Para ferida pequena e recente, há uso tradicional consolidado e registro regulatório como auxílio à cicatrização. A revisão sistemática publicada na Wound Repair and Regeneration em 2019, com 14 estudos, encontrou em feridas agudas resolução mais rápida da fase inflamatória e mais tecido de granulação — mas em feridas crônicas e queimaduras os resultados foram inconsistentes, incluindo um ensaio negativo em úlcera de perna diabética. Os autores pedem ensaios maiores e melhor desenhados. Resumindo: razoável para arranhão, insuficiente para ferida que não fecha.
Quem tem alergia a camomila ou arnica pode usar calêndula?
Não sem cautela. As três são da família Asteraceae, e a hipersensibilidade a plantas dessa família é a única contraindicação absoluta listada na monografia europeia da calêndula. O Memento Fitoterápico diz o mesmo. Como sensibilização cutânea consta entre os efeitos indesejáveis da própria calêndula, quem tem histórico de reação a Asteraceae deve evitar ou, no mínimo, testar numa área pequena de pele antes de aplicar em extensão.
Grávida pode passar pomada de calêndula?
O Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira contraindica calêndula durante a gravidez e a lactação, sem distinguir a via. A monografia europeia diz que a segurança na gestação e na amamentação não foi estabelecida e que, na ausência de dados suficientes, o uso não é recomendado. Nenhuma das duas abre exceção para a via tópica. Na dúvida, converse com quem acompanha a gestação antes de usar.
Calêndula previne a queimadura da radioterapia?
A evidência ficou dividida. Um ensaio randomizado de fase III publicado no Journal of Clinical Oncology em 2004, com 254 mulheres irradiadas após cirurgia de mama, mostrou 41% de dermatite grau 2 ou maior com calêndula contra 63% com trolamina. Mas a metanálise publicada no Supportive Care in Cancer em 2023 não encontrou efeito significativo da calêndula ao reunir os estudos disponíveis. Quem faz radioterapia deve seguir a orientação da equipe de oncologia sobre o que passar na pele irradiada, e não decidir por conta própria.
Por quanto tempo posso usar calêndula na pele?
A monografia europeia estabelece o limite: se os sintomas persistirem por mais de uma semana durante o uso, procure um profissional de saúde. As compressas embebidas devem ser retiradas depois de 30 a 60 minutos. A calêndula é recurso para queixa leve e autolimitada — pele irritada, arranhão, garganta levemente inflamada. Sintoma que dura mais que isso, ou que piora durante o uso, precisa de avaliação.
Calêndula é uma erva do Ayurveda?
Não é dravya do Ayurveda clássico. É planta mediterrânea, sem nome sânscrito consagrado nos nighaṇṭus, incorporada tarde à fitoterapia brasileira. O que este acervo faz é lê-la pelos parâmetros ayurvédicos — sabor amargo e picante, potência refrescante, redução de Pitta e Kapha —, o que é útil para situá-la ao lado das outras plantas do catálogo, mas não a transforma em tradição indiana. Quem afirma que a calêndula tem uso milenar no Ayurveda está inventando linhagem.
Fontes
- European Medicines Agency, Committee on Herbal Medicinal Products (HMPC). European Union herbal monograph on Calendula officinalis L., flos. EMA/HMPC/437450/2017, Revision 1, 27 March 2018. https://www.ema.europa.eu/en/documents/herbal-monograph/final-european-union-herbal-monograph-calendula-officinalis-l-flos-revision-1_en.pdf
- European Medicines Agency. Calendulae flos — herbal medicine overview (HMPC). https://www.ema.europa.eu/en/medicines/herbal/calendulae-flos
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, 1ª edição, 2016 — monografia Calendula officinalis L., p. 30-33. https://www.gov.br/anvisa/en/pharmacopeia/arquivos/memento-fitoterapico.pdf
- Givol O, Kornhaber R, Visentin D, Cleary M, Haik J, Harats M. A systematic review of Calendula officinalis extract for wound healing. Wound Repair Regen. 2019;27(5):548-561. PMID 31145533. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31145533/
- Pommier P, Gomez F, Sunyach MP, D'Hombres A, Carrie C, Montbarbon X. Phase III randomized trial of Calendula officinalis compared with trolamine for the prevention of acute dermatitis during irradiation for breast cancer. J Clin Oncol. 2004;22(8):1447-1453. PMID 15084618. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15084618/
- Robijns J, Becherini C, Caini S, et al. Natural and miscellaneous agents for the prevention of acute radiation dermatitis: a systematic review and meta-analysis. Support Care Cancer. 2023;31(3):195. PMID 36859690. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36859690/