Camomila

Camomila (Matricaria chamomilla): rasa Tikta e Katu, vīrya Sheeta, vipāka Katu. Pacifica Pitta e Kapha. Para que serve, como usar e precauções.

Para que serve

A camomila ocupa um lugar incomum entre as plantas populares: quase todo mundo já tomou, e ainda assim ela tem registro regulatório dos dois lados do Atlântico. O Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira a indica como antiespasmódico, ansiolítico e sedativo leve, e como anti-inflamatório em afecções da cavidade oral. A monografia da Agência Europeia de Medicamentos (EMA/HMPC) reconhece quatro usos tradicionais: queixas gastrointestinais menores como distensão e cólicas leves, alívio dos sintomas do resfriado comum, tratamento de pequenas úlceras e inflamações da boca e da garganta, e terapia adjuvante de irritações da pele e das mucosas na região anal e genital.

Repare no que essas duas listas têm em comum: espasmo e inflamação de mucosa. É esse o eixo da planta. A camomila não é um sedativo que desliga o sistema nervoso; é uma flor antiespasmódica cuja ação calmante chega, em boa medida, por afrouxar a musculatura lisa que a ansiedade contrai. Daí a indicação clássica para o paciente cujo nervosismo se manifesta no abdome — cólica, gases, estômago fechado, intestino irritável — e não apenas na cabeça.

A evidência clínica em humanos é modesta, mas existe, o que já a distingue da maioria das ervas populares. Uma revisão sistemática com metanálise publicada na Phytotherapy Research em 2019 reuniu 12 ensaios randomizados e quase-randomizados e concluiu que a camomila parece eficaz e segura para qualidade do sono e para transtorno de ansiedade generalizada, com pouca evidência de efeito sobre ansiedade de estado e insônia propriamente dita. Uma metanálise mais recente, na Complementary Therapies in Medicine em 2024, reuniu 10 estudos e 772 participantes: houve melhora do escore global de qualidade do sono, sobretudo pela redução dos despertares noturnos, mas sem aumento do tempo total dormido.

Para ansiedade, o dado mais citado vem de um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado no Journal of Clinical Psychopharmacology em 2009, com 57 pacientes de transtorno de ansiedade generalizada leve a moderado: o extrato de camomila reduziu a escala HAM-A mais que o placebo, e os próprios autores descrevem o efeito como ansiolítico modesto. Um estudo de seguimento de longo prazo, na Phytomedicine em 2016, mostrou que o uso prolongado é seguro e mantém os sintomas mais baixos, mas não reduziu de forma estatisticamente significativa a taxa de recaída.

Traduzindo para a prática: chá de camomila é apoio real e de efeito discreto. Quem espera dele o efeito de um ansiolítico ou de um indutor de sono vai concluir que não funciona — e estará avaliando a planta por uma promessa que ela nunca fez.

Como age segundo o Ayurveda

A leitura ayurvédica começa pelos parâmetros do rasapañcaka. Na camomila: rasa tikta e kaṭu (sabores amargo e picante), vīrya śīta (potência refrescante) e vipāka kaṭu (efeito pós-digestivo picante). Sobre os doshas, ela equilibra Vāta, reduz Pitta e reduz Kapha.

Essa sequência explica o comportamento da flor melhor que uma lista de indicações. O amargo drena e desinflama, e é dele que vem a utilidade nas mucosas irritadas — boca, garganta, intestino, pele. A potência refrescante é o que faz da camomila uma calmante para quadros de calor: ansiedade com irritabilidade, azia, pele reativa, rosto quente. É o oposto do perfil de Ashwagandha, que acalma aquecendo. Quando o paciente está agitado e com calor, a flor fria é a escolha coerente.

O picante, presente no sabor e no vipāka, é o que impede que ela seja apenas uma erva fria e pesada: move, dispersa gases e sustenta a digestão. É a razão de a mesma flor servir para o nervosismo e para a cólica intestinal, e de o chá cair bem depois da refeição em vez de estagnar. O aroma volátil, na leitura ayurvédica, atua sobre prāṇa vāyu e sobre a mente — a camomila é usada como planta que assenta a inquietação sem embotar.

A farmacologia moderna atribui os efeitos a três grupos de compostos, todos listados pelo Memento como classes químicas principais: flavonoides, com destaque para apigenina e luteolina; a cumarina umbeliferona; e o óleo essencial, rico em alfa-bisabolol, óxidos de alfa-bisabolol, farneseno, camazuleno e espiroéteres. A apigenina é o composto mais estudado no eixo ansiolítico, e é por ela que os extratos usados nos ensaios clínicos costumam ser padronizados — a 1,2% de apigenina, na especificação que o próprio Memento registra. O camazuleno, que dá ao óleo essencial a cor azul, e o alfa-bisabolol respondem pela ação anti-inflamatória tópica, e o Memento registra ensaios pré-clínicos de inibição seletiva de COX-2 por extrato aquoso.

Como usar

A parte usada são as inflorescências — os capítulos florais secos. Folha e caule não entram na droga vegetal oficial, e chá de saquinho com muito talo é mais fraco do que a dose de monografia sugere.

O preparo padrão é o infuso, não a fervura: água fervente sobre a flor, tampar e esperar de 5 a 10 minutos. Tampar não é detalhe — o óleo essencial é volátil e boa parte do que faz efeito sai com o vapor num copo aberto. O Memento Fitoterápico especifica 6 a 9 g de flor para 150 mL de água, tomando-se 150 mL do infuso de 3 a 4 vezes ao dia, entre as refeições, acima de 12 anos. A monografia europeia trabalha com faixa menor: 1,5 a 4 g em 150 mL de água fervente, de 3 a 4 vezes ao dia para adolescentes, adultos e idosos.

Para crianças, a EMA detalha a dose do chá por faixa etária no uso gastrointestinal: 0,5 a 1,0 g por vez dos 6 meses aos 2 anos, 1,0 a 1,5 g dos 2 aos 6 anos e 1,5 a 3,0 g dos 6 aos 12 anos, de 2 a 4 vezes ao dia — e registra que o uso oral do chá abaixo dos 6 meses não está estabelecido. O extrato fluido é outra conversa: o Memento fixa 1 a 4 mL três vezes ao dia para adultos, 0,6 a 2 mL em dose única para crianças acima de 3 anos, e proíbe o extrato fluido abaixo dos 3 anos.

Para boca e garganta, o uso é o mesmo infuso em bochecho ou gargarejo, três vezes ao dia. Para pele, compressa com infusão preparada na proporção de 30 a 100 g de flor para 1000 mL de água. Para congestão de vias aéreas, a EMA reconhece a inalação de vapor com 3 a 10 g da flor em 100 mL de água quente. Todas essas vias usam a mesma droga vegetal, em concentrações diferentes.

Quanto ao tempo de uso, o Memento é explícito ao dizer que não encontrou dados sobre tempo máximo de utilização e que a duração depende da indicação e do acompanhamento do prescritor. Vale a mesma regra prática dos ensaios clínicos de ansiedade: efeito discreto e cumulativo, avaliado em semanas. Nas combinações caseiras brasileiras, aparece com erva-cidreira e capim-santo para o eixo nervoso e com erva-doce para o eixo digestivo.

Precauções e interações

A precaução mais importante é alérgica, e é a mesma nas duas monografias. As lactonas sesquiterpênicas das flores podem desencadear reação em pessoas sensíveis, e a camomila é contraindicada em quem tem hipersensibilidade a plantas da família Asteraceae — a mesma da arnica, da calêndula, do girassol e da artemísia. Há dermatite de contato descrita para preparações tópicas e, embora os casos atribuídos especificamente à camomila sejam poucos, existe relato de reação anafilática por ingestão das flores. A EMA registra, sem frequência conhecida, reações de hipersensibilidade graves — dispneia, edema de Quincke, colapso vascular, choque anafilático — após contato de mucosa com preparações líquidas de camomila. Chá popular não é sinônimo de inócuo.

Gestação é onde os dois reguladores divergem, e vale saber disso. O Memento Fitoterápico brasileiro contraindica a gestantes, pela atividade emenagoga e relaxante da musculatura lisa, e afirma que não há relatos disponíveis de segurança e eficácia durante a gestação. A EMA, para o chá da flor íntegra, considera a segurança estabelecida na gestação e na lactação, mas não recomenda nenhuma das preparações extrativas por falta de dados. Na dúvida entre os dois, o critério prudente no Brasil é o do regulador local: evitar na gestação, sobretudo em extratos e em uso continuado. Para a lactação, a EMA acrescenta uma orientação prática: se houver produto de camomila de uso cutâneo nos mamilos, limpá-los antes de amamentar, para não sensibilizar o bebê.

Interações medicamentosas estão descritas e são reais. O Memento lista, para uso interno, interação com varfarina, estatinas e contraceptivos orais. Quem usa anticoagulante e toma camomila em quantidade medicinal — não a xícara ocasional — precisa avisar o médico e monitorar. Some-se a isso o efeito aditivo esperado com sedativos e ansiolíticos, coerente com a ação de sedativo leve reconhecida em bula.

Pelo ângulo ayurvédico, o cuidado é o inverso do de Ashwagandha: sendo fria e amarga, a camomila em uso frequente pode agravar Vāta em quem já está seco, friorento e disperso, e não é a escolha para digestão fraca com agni baixo e sensação de peso. Nesses casos, o chá quente ajuda pela temperatura enquanto a planta trabalha contra o terreno.

Não há dado sobre superdosagem, e a EMA registra que nenhum caso foi relatado. Também não foram feitos testes adequados de toxicidade reprodutiva, genotoxicidade e carcinogenicidade. Nada aqui substitui consulta: este verbete é referência de estudo, não prescrição.

Perguntas frequentes

Chá de camomila realmente ajuda a dormir?

Ajuda de forma discreta e não como um indutor de sono. A metanálise de 2024 na Complementary Therapies in Medicine, com 10 estudos e 772 participantes, encontrou melhora do escore global de qualidade do sono, principalmente por reduzir os despertares durante a noite — mas sem aumento do tempo total dormido. É um efeito sobre a continuidade do sono, não sobre a quantidade.

Camomila serve para ansiedade?

O Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira a reconhece como ansiolítico e sedativo leve. A evidência clínica acompanha, em escala modesta: um ensaio randomizado duplo-cego de 2009 com 57 pacientes de ansiedade generalizada leve a moderada mostrou redução da escala HAM-A maior que a do placebo, e os autores descrevem o efeito como ansiolítico modesto. A revisão sistemática de 2019 conclui a favor no transtorno de ansiedade generalizada, com evidência escassa para ansiedade de estado.

Pode tomar camomila na gravidez?

O regulador brasileiro diz que não. O Memento Fitoterápico contraindica a gestantes pela atividade emenagoga e relaxante da musculatura lisa, e registra que não há relatos disponíveis de segurança e eficácia na gestação. A monografia europeia é mais permissiva com o chá da flor íntegra, mas não recomenda extratos. No Brasil, o critério prudente é seguir o regulador local e conversar com quem acompanha a gestação antes de usar.

Quem tem alergia pode tomar camomila?

Quem tem hipersensibilidade a plantas da família Asteraceae — arnica, calêndula, girassol, artemísia — não deve usar. As lactonas sesquiterpênicas das flores podem desencadear reação em pessoas sensíveis; há dermatite de contato descrita e relato de reação anafilática por ingestão das flores. A EMA registra reações graves, incluindo choque anafilático, após contato de mucosa com preparações líquidas.

Camomila interage com algum remédio?

Sim. O Memento Fitoterápico descreve interações do uso interno com varfarina, estatinas e contraceptivos orais. Some-se a isso o efeito aditivo esperado com sedativos e ansiolíticos, coerente com a ação de sedativo leve. Quem usa anticoagulante e pretende tomar camomila em dose medicinal, e não a xícara ocasional, deve informar o médico.

Criança pode tomar chá de camomila?

O chá sim, com dose por faixa etária. A monografia europeia especifica, para queixas gastrointestinais, 0,5 a 1,0 g por vez dos 6 meses aos 2 anos, 1,0 a 1,5 g dos 2 aos 6 anos e 1,5 a 3,0 g dos 6 aos 12 anos, de 2 a 4 vezes ao dia, e registra que o uso oral abaixo dos 6 meses não está estabelecido. Já o extrato fluido é proibido abaixo dos 3 anos pelo Memento brasileiro.

Camomila é uma planta do Ayurveda?

Não é dravya da matéria médica clássica indiana: a camomila é planta europeia que entrou na fitoterapia brasileira e no uso popular. O que se pode fazer, com honestidade, é lê-la pelos parâmetros ayurvédicos — sabor amargo e picante, potência refrescante, vipāka picante, equilibrando Vāta e reduzindo Pitta e Kapha — sem inventar para ela um nome sânscrito ou uma tradição indiana que não existe.

Fontes

  • Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, 1ª edição — monografia Matricaria chamomilla L. (Anvisa, 2016): https://www.gov.br/anvisa/en/pharmacopeia/arquivos/memento-fitoterapico.pdf
  • European Union herbal monograph on Matricaria recutita L., flos — EMA/HMPC/55843/2011 (HMPC, 2015): https://www.ema.europa.eu/en/documents/herbal-monograph/final-european-union-herbal-monograph-matricaria-recutita-l-flos-first-version_en.pdf
  • Hieu TH et al. Therapeutic efficacy and safety of chamomile for state anxiety, generalized anxiety disorder, insomnia, and sleep quality: a systematic review and meta-analysis. Phytother Res, 2019 (PMID 31006899): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31006899/
  • Kazemi A et al. Effects of chamomile (Matricaria chamomilla L.) on sleep: a systematic review and meta-analysis of clinical trials. Complement Ther Med, 2024 (PMID 39106912): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39106912/
  • Amsterdam JD et al. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of oral Matricaria recutita (chamomile) extract therapy for generalized anxiety disorder. J Clin Psychopharmacol, 2009 (PMID 19593179): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19593179/
  • Mao JJ et al. Long-term chamomile (Matricaria chamomilla L.) treatment for generalized anxiety disorder: a randomized clinical trial. Phytomedicine, 2016 (PMID 27912875): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27912875/